A saúde da família está no primeiro nível de atenção no Sistema Único de Saúde (SUS) e é considerada uma estratégia primordial para a organização e o fortalecimento da atenção básica. A partir do acompanhamento de um número definido de famílias, localizadas em uma área geográfica delimitada, são desenvolvidas ações de promoção da saúde, prevenção, recuperação, reabilitação de doenças e agravos mais frequentes.
A Estratégia Saúde da família (ESF) foi criada pelo Ministério da Saúde com o objetivo de consolidar o Sistema Único de Saúde (SUS) que tem como base os princípios a equidade, integralidade e universalidade e, também, princípios organizativos como a descentralização, participação da comunidade e regionalização. A ESF é fundamentada na abordagem coletiva, multi e interprofissional, centrada na família e na comunidade e é composta por equipes saúde da família que envolve enfermeiros, médicos, técnicos em enfermagem, odontólogos e Agentes Comunitários de Saúde (ACS) (BARROS, 2014).
Desde 2003, o Ministério da Saúde tem desenvolvido ações com vistas a institucionalização da avaliação no âmbito da Atenção Básica (AB). A iniciativa mais recente para a implantação de processos avaliativos sistemáticos sobre a atuação das equipes no âmbito da AB foi o Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ-AB), cujo objetivo é avaliar aspectos estruturais oferecidos pela gestão municipal, aspectos do processo de trabalho desenvolvidos pelas equipes e de satisfação do usuário. Ao emitir o julgamento, o faz de maneira global, com foco na qualidade da atenção e no acesso aos serviços (BARATIERI; MARCON, 2011)
Eles preveem o estabelecimento de objetivos bem definidos visando implementar medidas para a garantia e a melhoria da qualidade. São conceitos que envolvem um processo dinâmico e participativo de identificação de problemas e deficiências, definição e implementação de propostas concretas de ação. O ciclo de melhoria de qualidade é um processo contínuo, no qual a avaliação leva ao diagnóstico das deficiências em comparação com parâmetros pré-estabelecidos, a definição de objetivos e metas, a implementação de ações e o retorno à avaliação após um prazo determinado. Esse trabalho de equipe não deve ser encarado nem concebido como um exercício acadêmico ou projeto de pesquisa, mas deve estar adequado para ser desenvolvido como parte integrante da rotina de trabalho. Para isso deve buscar instrumentos e metodologias simples, factíveis e operacionais (PUIME; OTERO; MARQUET, 2000).
Eu trabalho no município de Poço Redondo estado de Sergipe localizado no sertão sergipano, com uma área de extensão de 1212,461 km² e uma população aproximada de 32 949 habitantes. Poço Redondo é lembrado pelo lugar onde o Cangaceiro Virgulino Ferreira da Silva, mais conhecido como Lampião, foi morto na Fazenda Angicos, no local conhecido como Grota de Angicos. O Município também é conhecido por suas belezas naturais e atrações turísticas, bem como os povoados ribeirinhos de Curralinho, Bom Sucesso e Cajueiro. (IBGE, 2008).
A unidade básica de saúde está localizada no povoado de Alto Bonito, na divisa com o município de Canindé de São Francisco, A unidade é classificada como de porte I e é composta por mim (médica), 1 enfermeira, 1 técnica de enfermagem e 10 agentes comunitário de saúde. Os membros da equipe tem carga horária de 40 horas semanais e a população adscrita é de aproximadamente 4000 usuários. A principal ocupação dos usuários em idade produtiva é a agricultura.
Para definir os principais problemas que afetam a população adscrita foi utilizada a Autoavaliação para Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (AMAQ), que é uma ferramenta que auxilia a elaboração de uma matriz de intervenção para criar um plano de intervenção multiprofissional para intervir nos problemas da comunidade.
No primeiro momento da reunião tiveram muitas discussões sobre os temas a refletir. Posteriormente a equipe identificou os principais problemas, onde se concordou que a Hipertensão Arterial Sistêmica é o problema prioritário a ser enfrentado, uma vez que atingiu apenas cinco pontos de um total de 10 pontos possíveis. O modelo do padrão foi o 4.29 da subdimensão L (Atenção Integral a Saúde) que versa sobre a organização da atenção às pessoas com hipertensão, diabetes e obesidade com base na estratificação de risco.
A HAS é uma doença caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos ≥ 140 e/ou 90 mmhg. Frequentemente se associa a distúrbios metabólicos, alterações funcionais e/ou estruturais de órgãos-alvo, sendo agravada pela presença de outros fatores de risco (FR), como dislipidemia, obesidade abdominal, intolerância à glicose e diabetes mellitus (DM). Mantém associação independente com eventos como morte súbita, acidente vascular encefálico (AVE), infarto agudo do miocárdio (IAM), insuficiência cardíaca (IC), doença arterial periférica (DAP) e doença renal crônica (DRC), fatal e não fatal (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2016).
No Brasil, o controle e prevenção da HAS e suas complicações constituem o maior desafio para as equipes de Atenção Básica. Na ESF a proximidade e o vínculo entre a equipe multidisciplinar e usuários reforçam a responsabilidade profissional e a corresponsabilidade dos usuários na manutenção da pressão arterial em níveis considerados normais.
Nesse contexto, o Ministério da Saúde preconiza que sejam trabalhadas as modificações de estilo de vida (MEV), essenciais no processo terapêutico e na prevenção da hipertensão. A reeducação alimentar, sobretudo quanto ao consumo de sal e ao controle do peso, a prática de atividade física, o abandono do tabagismo e a redução do uso excessivo de álcool são fatores que precisam ser adequadamente abordados pela equipe de saúde e controlados pelos usuários (BRASIL, 2013).
Na sequência refletiu-se sobre as causas da hipertensão, identificação da situação problema e levantamento de estratégias de intervenção e superação do problema prioritário. Torna-se importante destacar que na nossa área alguns usuários com esta doença não tem muita adesão ao tratamento medicamentoso justificando-se com o trabalho ou esquecimento da hora da medicação. Além disso, não tem uma boa cultura alimentar, não tem conhecimentos sobre o autocuidado e apresentam outros fatores de risco. Sendo assim foi construída uma matriz de intervenção para garantir o acompanhamento e a abordagem adequada dos usuários, assim como conhecer qual é a prevalência real da HAS em nossa área adscrita.
Foi planejado um grupo de estratégias para alcançar os objetivos e metas como atualizar os registros dos usuários com HAS, fazer grupos para oferecer palestras sobre a importância do tratamento medicamentoso e de temas sobre autocuidado para o controle da HAS com ênfase na mudança no estilo de vida. Classificar os usuários com maior risco cardiovascular, além de organizar atividades coletivas com outros setores da saúde e da comunidade. É necessário também capacitar aos agentes comunitários de saúde mediante palestras com a equipe para oferecer uma atenção integral que vai começar desde o domicílio dos usuários.
Espera-se com essa matriz conhecer qual é a prevalência real de usuários com HAS, àqueles que têm maior risco de doença cardiovascular, além de ter uma equipe mais capacitada e envolvida no processo de educação dos hipertensos melhorando o cumprimento do tratamento medicamentoso e dietético, assim como sistematizar as consultas médicas, de enfermagem e saúde bucal.
Na reunião para condução da autoavaliação a equipe passou por um momento de desmotivação já que outras vezes outros profissionais tentaram fazer essas atividades e a equipe não conseguiu avançar rápido. Entretanto este obstáculo foi superado uma vez que toda a equipe ficou comprometida de trabalhar e sensibilizada com o problema que representa uma doença com a HAS. Espera-se também eu esta microintervenção seja capaz de motivar aos usuários para assumir sua corresponsabilidade pela saúde oferecendo maior conhecimento para eles sobre a doença, por meio das estratégias propostas pela equipe.
Ponto(s)