DESCONTINUIDADE DO ATENDIMENTO AOS USUÁRIOS COM HIPERTENSÃO ARTERIAL SISTÊMICA PELA FALTA DE MEDICAMENTO
Há anos que no Brasil começou uma grande luta sanitária que possibilitou em 1988 que a saúde se tornasse direito de todos e dever do Estado, por meio de um Sistema Único de Saúde (SUS). Essa transformação gerou algumas mudanças até adquirir a sua conformação atual. O SUS propõe uma estratégia para um cuidado integral e direcionado às necessidades de saúde da população, destaca a atenção básica como primeiro ponto de atenção e porta de entrada preferencial do sistema e as Unidades Básicas de Saúde (UBS) compostas por os Equipes de Saúde da Família são uma forma de organização.
A Estratégia Saúde da Família (ESF) foi proposta pelo Ministério da Saúde (MS) como uma ferramenta de reorganização da atenção básica e possibilidade de reorientação do sistema de saúde, incorporando os princípios da universalização, descentralização, integralidade e participação da comunidade. Dentro de esta estratégia de saúde da família nos propusemos avaliar a atenção aos usuários com Hipertensão Arterial Sistêmica.
A Hipertensão Arterial Sistêmica (HAS) é condição clínica multifatorial caracterizada por elevação sustentada dos níveis pressóricos ≥ 140 e/ou 90 mmHg. Frequentemente se associa a distúrbios metabólicos, alterações funcionais e/ou estruturais de órgãos-alvo, sendo agravada pela presença de outros fatores de risco (FR), como dislipidemia, obesidade abdominal, intolerância à glicose e diabetes melito (DM). Mantém associação independente com eventos como morte súbita, acidente vascular encefálico (AVE), infarto agudo do miocárdio (IAM), insuficiência cardíaca (IC), doença arterial periférica (DAP) e doença renal crônica (DRC), fatal e não fatal (SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2016).
Isto tem um grande impacto médico e social, visto que dados norte-americanos de 2015 revelaram que HAS estava presente em 69% dos indivíduos com primeiro episódio de IAM, 77% de AVE, 75% com IC e 60% com DAP. A HAS é responsável por 45% das mortes cardíacas e 51% das mortes decorrentes de AVE. No Brasil, HAS atinge 32,5% (36 milhões) de indivíduos adultos, mais de 60% dos idosos, contribuindo direta ou indiretamente para 50% das mortes por doença cardiovascular (DCV). Junto com DM, suas complicações (cardíacas, renais e AVE) têm impacto elevado na perda da produtividade do trabalho e da renda familiar, estimada em US$ 4,18 bilhões entre 2006 e 2015(SOCIEDADE BRASILEIRA DE CARDIOLOGIA, 2016).
A minha Unidade Básica de Saúde (UBS) Maria da Graça Costa Santana, pertencente ao povoado Água Fria, localizada no município Salgado, no estado do Sergipe. Dispõe de uma equipe composta por médica, enfermeira chefe, técnica de enfermagem, dentista e auxiliar em saúde bucal e 6 agentes comunitários de saúde. Atende uma população de 4000 pessoas e não está isenta dessa realidade, tendo diversos usuários portadores dessa doença crônica não transmissível.
Conhecendo isso e sabendo que existem certas não conformidades em nossa UBS, a equipe de saúde traçou uma microintervenção com o objetivo de conhecer os principais problemas que afetam o nosso trabalho diário, utilizando para isso a ferramenta avaliativa de Autoavaliação para Melhoria do Acesso e Qualidade da Atenção Básica (AMAQ). Para solucionar esses problemas foi confeccionada uma matriz de intervenção e um instrumento para monitorar os principais indicadores de trabalho na unidade.
Para realizar esta microintervenção primeiramente foi convocada uma reunião com toda a equipe de trabalho para a autoavaliação das ações, utilizando para isso a AMAQ, que é um instrumento de autoavaliação que auxilia no planejamento de ações da equipe. Com ele são identificados os nós críticos que devem ser trabalhados, assim como, as ações de intervenção que devem ser implementadas (BRASIL, 2016).
Foram utilizadas também as fichas de atendimento individual, fichas de atendimento coletivo, prontuários médicos e Sistema de Informação de Atenção Básica (SIAB). A partir disso foram identificados e priorizados os principais problemas que afetam a nossa área. Para a escolha utilizou-se o nível de factibilidade, considerando que os problemas identificados tenham uma pontuação menor de 5 pontos. Entre eles está que a UBS não dispõe da quantidade necessária de insumos e medicamentos para o atendimento de urgência e emergência. Outro problema foi a pouca ou ausência de práticas corporais e atividades físicas na UBS. Entretanto, o problema fundamental está relacionado ao padrão 3.15 e aborda a subdimensão de Insumos, Imunobiológicos e Medicamentos.
Tal fato foi verificado, pois a UBS não disponibiliza medicamentos do Componente Básico da Assistência Farmacêutica com suficiência e regularidade, o que provoca a descontinuidade do acompanhamento dos usuários hipertensos por falta de medicamento. Com toda a informação recolhida a equipe fez várias matrizes de intervenção, construindo planos de ação para dar solução a cada problema identificado. A continuação o problema principal.
Descrição do padrão: 3.15 A Unidade Básica de Saúde disponibiliza medicamentos do Componente Básico da Assistência Farmacêutica com suficiência e regularidade.
Descrição da situação problema para alcance do padrão: Descontinuidade de acompanhamento de usuários hipertensos pela falta de medicamentos.
Objetivo∕ Meta: Acompanhar os usuários hipertensos para melhor controle e compensação.
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Estratégias para alcançar os objetivos∕ metas |
Atividades a serem desenvolvidas (Detalhamento da Execução) |
Recursos necessários para o desenvolvimento das atividades |
Resultados esperados |
Responsáveis
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Prazos |
Mecanismos e indicadores para avaliar o alcance dos resultados |
| Disponibilizar medicamentos | 1.Identificar os grupos de medicamentos usados pelos usuários com HAS.
2.Planejar a compra de medicamentos de forma que não falte e controle de estoque. |
1.Prontuarios médicos individuais.
2.Compra de medicamentos e licitação em tempo hábil. |
1.Grupo medicamentoso identificado para cada usuário.
2.Acompanhamento efetivo dos usuários com HAS. 3.Compensação da HAS. |
1.Equipe de Saúde.
2.Gestor Municipal 3.Farmácia. |
03 Meses | 1.Evitar evasão dos usuários e melhor adesão dos usuários.
2.Monitoramento de PA. |
Num segundo momento a equipe refletiu sobre como o monitoramento dos indicadores de saúde aconteciam na unidade de saúde e como os registros eram feitos, chegando a conclusão de que o modelo utilizado pela equipe era desatualizado e que faltavam indicadores a ser avaliados como atenção à saúde bucal e atendimentos realizados pelo Núcleo de Apoio a Saúde da Família (NASF).
Por esse motivo, nossa equipe propôs como estratégia de monitoramento dos indicadores de desempenho a criação de uma planilha física que visualizará todos os indicadores de saúde, para a melhoria dos serviços e elevar a satisfação do profissional com o trabalho diário e organizado. O documento será discutido nas reuniões de equipe, que são realizadas mensalmente, para assim ter uma noção do que foi realizado, o que fica pendente e como podemos melhorar. Os indicadores serão mostrados para o público por meio de sala de situação, e posteriormente será melhorada com a confecção de um banner para melhor visualização e entendimento. (APÊNDICE 1)
Com a realização desta microintervenção nós aprendemos primeiramente que o trabalho em equipe é fundamental para o cumprimento de todos os objetivos propostos. Também aprendemos que existe um instrumento excelente para fazer a autoavaliação da UBS: AMAQ. Sendo assim, foram identificados os principais problemas e a partir foi traçado um plano de ação para o cumprimento do mesmo. Além disso aprendemos que o instrumento para monitorar os indicadores da UBS não era factível e estava incompleto, chegando a conclusão de que precisávamos criar outro e fortalecer essas deficiências.
Existiram muitas potencialidades para executar a microintervenção. A equipe manteve sempre a unidade, a partir disso foi fácil fazer a avaliação, identificar os problemas, criar o plano de ação e traçar estratégias para a solução dos mesmos. Os grupos de medicamentos mais usados por os usuários foram identificados e após isso feita uma reunião com o gestor do município e a farmácia, para assegurar a compra dos mesmos em tempo hábil. Tudo ficou acordado e ficamos otimistas porque houve uma boa comunicação e entendimento.
Em relação ao instrumento de monitoramento dos indicadores a equipe ficou muito satisfeita com a planilha física criada, que representa um instrumento de fácil acesso e preenchimento. Além disso é uma forma de organizar e cumprir com nosso trabalho.
A microintervenção está tendo um impacto positivo em nossa UBS. A equipe já conhece as principais fragilidades (problemas) e estamos trabalhando para dar solução as mesmas no menor tempo possível. O trabalho diário a partir dos indicadores ficou muito mais organizado, melhor monitorado e registrado com a nova planilha física confeccionada.
A equipe de trabalho ficou muito otimista porque com a continuidade da mesma, será cumprido o objetivo traçado no plano de ação que é disponibilizar os medicamentos para os usuários com HAS e possibilitar melhor acompanhamento e controle da pressão arterial. Também com a continuidade da mesma e com a estratégia de monitoramento dos indicadores, a equipe vai conseguir a melhorá-los com base no trabalho diário e organizado, conseguindo assim a melhoria dos serviços e elevar a satisfação dos profissionais e dos usuários.
Foi um momento muito importante a realização dessa microintervenção já que conhecemos as principais situações que afetavam nosso trabalho e falhas da equipe. A microintervenção contribuiu para solucionar os problemas que nos afetavam, melhorou o funcionamento da UBS e da equipe, além de ter ajudado a elevar o nosso nível cientifico.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Ministério da Saúde. Autoavaliação para melhoria do acesso e da qualidade da atenção básica – AMAQ. 3. ed. Brasília: Ministério da Saúde, 2016. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/AMAQ_AB_SB_3ciclo.pdf Acesso em: 26 maio de 2018.
SOCIEDADE BRASILIERA DE CARDIOLOGIA. 7a diretriz brasileira de hipertensão arterial. Arquivos brasileiros de cardiologia, v. 107, n.3, p. 1 – 83. 2016. Disponível em: http://publicacoes.cardiol.br/2014/diretrizes/2016/05_HIPERTENSAO_ARTERIAL.pdf . Acessado em: 27 de maio de 2018.
APÊNDICES
1. UNIDADE BÁSICA DE SAÚDE MARÍA DA GRAÇA COSTA SANTANA
ESF #3
POVOADO ÁGUA FRIA
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Dados informativos |
Jan | Fev | Mar | Abril | Maio | Jun | Jul | Ago | Set | Out | Nov | Dez |
| # de habitantes | ||||||||||||
| # de atendimentos | ||||||||||||
| # de atendimentos médicos | ||||||||||||
| # de atendimentos realizados por a enfermeira | ||||||||||||
| # de consultas de cuidado contínuo | ||||||||||||
| # de consultas agendadas | ||||||||||||
| # de consultas por demanda espontânea | ||||||||||||
| # de gestantes | ||||||||||||
| # de gestantes com atenção pré-natal | ||||||||||||
| # de gestantes acompanhadas por visita domiciliar | ||||||||||||
| # de recém-nascidos | ||||||||||||
| # de recém-nascidos atendidos na primeira semana de vida | ||||||||||||
| # de puericulturas | ||||||||||||
| # de pacientes com HAS | ||||||||||||
| # de consultas realizadas a pacientes com HAS | ||||||||||||
| # de pacientes com DM | ||||||||||||
| # de consultas realizadas a pacientes com DM | ||||||||||||
| # de pacientes com Asma | ||||||||||||
| # de consultas realizadas a pacientes com Asma | ||||||||||||
| # de consultas de Saúde mental | ||||||||||||
| # de consultas de Saúde bucal | ||||||||||||
| # de exames citopatológico do colo do útero | ||||||||||||
| # de encaminhamentos a serviços especializados | ||||||||||||
| # de encaminhamentos ao NASF |