25 de junho de 2018 / SEM COMENTÁRIOS / CATEGORIA: Relatos

ACESSO AVANÇADO NA UNIDADE DE SAÚDE DE NOVA NATAL: RELATO DE EXPERIÊNCIA

ESPECIALIZANDO: RÚTILA TAIANE PRAXEDES RITTER

ORIENTADOR: TULIO FELIPE VIEIRA DE MELO

            Durante o estudo do módulo Acolhimento à Demanda Espontânea e Programada, muitas temáticas foram importantes para o entendimento de um bom funcionamento das unidades de saúde com a implementação do acesso avançado.

            O acolhimento é um mecanismo fundamental na prática diária da atenção básica. O ato de acolher o cidadão promove humanização do atendimento, bem como maior integração do usuário à unidade de saúde. A prática diária do acolhimento estabelece uma ligação concreta e de confiança entre o usuário e a equipe de saúde promovendo assim adequado funcionamento dos serviços e dos princípios do Sistema Único de Saúde (SUS).

            O acolhimento possibilita uma reflexão acerca dos processos de trabalho em saúde, pois estabelece uma relação concreta e de confiança entre o usuário e o profissional ou a equipe, estando diretamente orientado pelos princípios do SUS (BRASIL, 2010), podendo atender às demandas da sociedade e estabelecer relação com os outros serviços de saúde, de maneira regionalizada e hierarquizada. É um recurso destinado a apoiar a qualificação do sistema de saúde, pois possibilita ao usuário o acesso a um cuidado justo, ampliado e integral, a partir do reconhecimento de que esse acesso é um direito humano fundamental (CARVALHO ET AL., 2008; BARALDI; SOUTO, 2011).

            Aponta-se o acolhimento como diretriz operacional fundamental do modelo assistencial proposto pelo SUS, a fim de garantir não só a acessibilidade universal, mas também a qualificação das relações, na qual escuta e atenção às necessidades são fundamentais ao processo para que o serviço ofereça uma resposta resolutiva às demandas dos usuários (BREHMER; VERDI, 2010)

            A unidade em que trabalho, UBS de Nova Natal, já possui o processo de acolhimento implantado há cerca de 08 meses. Foi uma das unidades de saúde de Natal piloto na tentativa de implementar a prática diária do acolhimento. A unidade funciona de segunda à sexta-feira nos dois turnos. Inicialmente o acolhimento foi implementado apenas no turno da manhã. A unidade possui 06 equipes cadastradas na Estratégia de Saúde da Família, das quais 02 encontram-se desassistidas de médicos. Por se tratar de uma unidade de grande porte – Porte IV – muitas limitações e dificuldades existiram com a tentativa de instituir o processo do acolhimento.

            A tentativa de implementar o processo de acolhimento na Unidade de Nova Natal surgiu por parte da gestão antiga da unidade associada com a alta demanda de procura por atendimentos médicos que surgiam diariamente. Durante a escuta inicial dos pacientes que chegavam na direção reclamando por falta de ¨ficha¨ de atendimento médico, o administrativo percebeu que as queixas dos pacientes, muitas vezes, era algo que necessitava de atendimento no dia, alguns casos até mesmo imediato, o que não corroborava com a tentativa de marcação de consultas.

            Baseado nisso, e no que já vinha sendo proposto pela Estratégia de Saúde de Família (ESF) sobre a demanda espontânea, a direção se reuniu com os profissionais da unidade e mostrou a realidade local e também propôs uma nova forma de acesso dos pacientes à unidade. Infelizmente para implantar o acolhimento à unidade não contou com a capacitação adequada dos profissionais. Além de não contar com o suporte adequado ainda houve grande recusa de alguns profissionais da unidade, principalmente, médicos antigos e agentes comunitários de saúde, que não entendem a importância do acesso avançado diariamente dentro da unidade.

            Não acompanhei a fase inicial de implementação do acolhimento, pois cheguei na unidade em janeiro de 2018, mas pude perceber que houve muita resistência de profissionais e falta de capacitação adequada, para que as pessoas que necessitam dessa demanda possam ser atendidas com qualidade.

            Atualmente, o processo de acolhimento acontece da seguinte forma. Os pacientes chegam na unidade e são inicialmente ouvidos pelos agentes comunitários de saúde. Em seguida, são encaminhados para escuta por um profissional de nível superior, enfermeiros ou dentistas, onde por meio da escuta qualificada orientam determinada queixa e/ou encaminham para consulta médica naquele dia/turno. Há um ambiente adequado para realizar a escuta dos pacientes, com mesa, maca para exame físico e materiais técnicos, como tensiômetro, termômetro, balança e oxímetro. Dependendo da avaliação inicial os casos de atendimento de urgência são encaminhados diretamente para consultório médico, os casos “não urgentes” são atendidos no turno ou no dia, dependendo da demanda interna e os casos “pouco urgentes” são orientados e é marcado a consulta médica posteriormente. Além dos pacientes que estão marcados na agenda, cada médico dispõe de mais 02-03 vagas/turno para realizar atendimento dessas demandas diárias.

            Para melhor adaptação da equipe de nível superior (médicos, enfermeiros e dentistas) ao processo de acolhimento, são realizadas semanalmente reuniões técnicas para discutir as demandas que chegam e a melhor forma de conduzir cada caso. Cada semana é abordado um grupo prioritário, como idoso, crianças, gestantes e suas principais queixas.

            Para ajudar na discussão é utilizado um material de apoio, que foi elaborado por profissionais médicos da Universidade Federal do Rio Grande do Norte (UFRN) com apoio da Secretaria Municipal de Saúde (SMS). Além disso, são discutidos as demandas que apareceram durante a semana, com suas abordagens adequadas e de que forma poderia ter sido conduzido cada queixa procurando melhorar o processo de escuta qualificada. A troca de experiências que acontece durante as reuniões por todos os profissionais é fundamental no processo de implementação do acesso avançado, bem como no fornecimento de um serviço de qualidade. Atualmente, a unidade está expandindo o processo de acolhimento para o turno da tarde.

            Muitos são os impasses na perpetuação do processo de acolhimento na unidade. Falta capacitação técnica dos agentes comunitários de saúde e dos técnicos de enfermagem sobre o processo de acolhimento. Principalmente, com relação aos agentes comunitários de saúde, que apresentam muita resistência com a implementação do acolhimento. Os agentes acreditam que a demanda de acolhimento atrapalha o funcionamento adequado da unidade.

Argumentam ainda que essas vagas que são utilizadas para o acolhimento diminuem a demanda da marcação diária das agendas dos médicos e que prejudica ainda mais os pacientes, pois precisam tirar “fichas” da agenda para o acolhimento. Além disso, não sabem orientar de forma correta os pacientes que chegam ao acolhimento, dependendo da queixa já orientam que os pacientes procurem as unidades de urgência, mesmo sem passar pela avaliação médica. Sem contar que orientam os pacientes que não possuem doenças crônicas ou qualquer alteração de urgência a apresentar os exames de rotina nas consultas de acolhimento.

            Durante as reuniões técnicas esse ponto vem sendo levantado com bastante frequência. Já foi solicitado várias vezes com a gestão local capacitações desses profissionais sobre o acolhimento, porém nada foi resolvido até hoje.

            Como tentativa de capacitar minha equipe (equipe 42) venho realizando durante as reuniões quinzenais da equipe explicações e abordagens adequadas sobre a demanda espontânea do acolhimento. Durante as reuniões procuro exemplificar com casos clínicos, abordo temáticas de queixas que podem surgir diariamente e tento explicar a importância de manter o acolhimento diariamente na unidade.

            Com a instituição das reuniões técnicas percebo que o processo de acolhimento vem crescendo nos últimos meses e se adaptando cada vez mais a realidade das demandas. A troca de experiências associada com a discussão de queixas/abordagens enriquece cada vez mais a implementação do processo, bem como permite oferecer melhor qualidade dos serviços de saúde.

            Para que o acolhimento seja efetivado nas unidades de saúde é fundamental preparar e capacitar quem acolhe. É essencial ter ambiente adequado e profissionais acolhedores, preparados para desenvolver uma escuta qualificada fornecendo uma resposta positiva e humanizada ao usuário que necessita de atenção e integração naquele momento. Portanto, a gestão local precisa garantir continuamente a capacitação de todos os profissionais da unidade, organizar com frequência os fluxos de atendimentos e principalmente cuidar de quem cuida e acolhe com amor. É fundamental entendermos que o acolhimento é uma estratégia que minimiza situações de sofrimento e abandono dos usuários, bem como promove práticas integrativas do cuidado, garante acesso ao atendimento e possibilita humanização dos serviços oferecidos.

Referências:

BRASIL. Ministério da Saúde. HumanizaSUS: documento base para gestores e trabalhadores do SUS. 3. ed. Brasília, DF: Ministério da Saúde, 2006.

BREHMER, L. C. F; VERDI, M. Acolhimento na Atenção Básica: reflexões éticas sobre a Atenção à Saúde dos usuários. Ciência & Saúde Coletiva, Rio de Janeiro, v. 15, supl. 3, p. 3569-3578, 2010.

BARALDI, D. C.; SOUTO, B. G. A. A demanda do acolhimento em uma unidade de saúde da família em São Carlos, São Paulo. Arq. Bras. Cienc. Saúde, Santo André, v. 36, n. 1, p. 10-17, 2011.

CARVALHO, C. A. P. et al. Acolhimento aos usuários: uma revisão sistemática do atendimento no Sistema Único de Saúde. Arq. Ciênc. Saúde, São José do Rio Preto, v. 15, n. 2, p. 93-98, 2008.

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