Microintervenção I- Observação na unidade de saúde
Um grande território necessitando de pequenas, porem, impactantes intervenções.
Especializando: José Ribamar de Lima Júnior
Orientador: Maria Betânia Morais de Paiva
O Programa Nacional de Melhoria do Acesso e Qualidade (PMAQ) e o instrumento de Autoavaliação (AMAQ) são ótimas ferramentas para fazer levantamento situacional das unidades básicas de saúde e do processo de trabalho, promovendo reflexões sobre as responsabilidades dos trabalhadores em oferecer boa qualidade no serviço fornecido à população, bem como promovendo mudança e melhoria nestes serviços e maior satisfação dos usuários. De forma sistemática e padronizada o AMAQ/PMAQ auxilia os profissionais da atenção básica nesse processo, devendo ser utilizado de forma rotineira, e não apenas quando são precisos serem realizados os levantamentos e relatórios das unidades de saúde.
Acredito que a utilização da autoavaliação do AMAQ nas unidades e também por cada equipe de saúde possibilita realizar um levantamento fidedigno do serviço prestado à população, bem como da identificação de prontos frágeis da equipe no fornecimento desses serviços. Garantindo assim a adoção de medidas que permitam ajustar os indicadores que possuem deficiência na demanda de cada equipe.
Para realizar a autovaliação do AMAQ foi necessário reunir com a equipe durante 01 turno. A reunião contou com o apoio de todas as agentes comunitárias que compõem a equipe. Não foi possível a participação da enfermeira, pois a mesma encontra-se em licença prêmio, e da equipe de saúde bucal que está sem profissionais há mais de 01 ano. Durante a reunião foi possível discutir todos os itens que compõem o AMAQ e perceber a fragilidade de cada quesito. Alguns itens pontuaram nota máxima, outros nota mediana e dois quesitos pontuaram nota igual ou inferior a 5. Dentre eles, irei citar os quesitos que necessitam de uma intervenção mais rápida para que possam apresentar melhorias nos serviços fornecidos aos usuários.
No quesito Insumos, Imunobiológicos e Medicamentos um item que foi levantado pela equipe com fragilidade adquirindo nota < 5 foi à questão dos medicamentos fornecidos na unidade, principalmente medicamentos utilizados para o primeiro atendimento nos casos de urgência e emergência. Como a unidade em que trabalho é de porte IV e possui a demanda do acolhimento muitos casos de urgência vêm sendo atendidos na unidade. Certo dia chegou para atendimento no acolhimento um idoso com queixa de agonia no peito, taquicardia e dispneia. O paciente estava extremamente ansioso e com tremores pelo corpo. Durante a abordagem inicial solicitei o kit de urgência da unidade para que pudesse realizar a monitorização adequada e intervir no quadro clinico do paciente. O oxímetro de pulso estava sem pilhas, a bala de oxigênio vazia e o tensiômetro havia desaparecido. Os sinais vitais básicos foram prejudicados devido a oferta inadequada desses insumos. Durante a abordagem e exame físico do paciente percebi que o mesmo estava diante de um quadro ansioso associado com ataque de pânico. Quando fui ofertar o medicamento para o paciente percebi que que no kit de urgência não havia as medicações básicas para tal intervenção. Quem ajudou durante a abordagem foi um funcionário da unidade de saúde que fazia uso de um Benzodiazepínico e acabou fornecendo a medicação.
Sem contar nos picos hipertensivos e hiperglicêmicos que chegam na unidade corriqueiramente e que precisam ser encaminhados para a UPA, devido à falta de medicamentos tanto no kit de urgência, bem como na farmácia.
Diante dessa realidade a equipe decidiu se unir e intervir no intuito de transformar essa situação e poder fornecer um melhor atendimento à esses casos. Solicitamos uma reunião com a direção da unidade para que possamos exemplificar os casos que apareceram e que necessitaram de uma intervenção eficaz e não foi possível ser realizado devido à falta desses insumos e medicamentos. Busquei até em algumas fontes o check list dos medicamentos e insumos básicos da urgência na atenção básica para melhor argumentar e explicar a real importância da manutenção adequada dos medicamentos em questão. Oriento ainda que a direção designe um profissional para realizar a conferência desse material permitindo a manutenção adequada e evitando maiores transtornos quando eles forem utilizados. Inclusive, me disponho para ficar encarregado desse material.
Outro quesito que durante a autoavaliação pontuou com nota igual a 5 foi Educação permanente e qualificação das equipes da atenção básica. Existe uma certa resistência da minha equipe nos cursos de atualização e qualificação profissional. Por se tratar de uma equipe que possui profissionais antigos e com idade mais avançada existe uma barreira na aceitação dessas capacitações, consequentemente existe um declínio na qualidade dos serviços ofertados. Muitos preferem ficar na “zona de conforto” e não buscam conhecimento e melhoria dos processos de trabalho. Um exemplo disso é com relação a capacitação de acolhimento e demanda espontânea. As agentes comunitárias da minha equipe não participaram da capacitação e possuem uma certa resistência de sua implementação na unidade. Acreditam que as vagas que devem ser abertas na agenda para essa demanda só atrapalham a agenda dos atendimentos, visto que precisam marcar menos consultas devido as vagas diárias de acolhimento. Sem contar, que os pacientes que elas orientam procurar o acolhimento são queixas crônicas e que necessitam de uma abordagem que não seja de urgência. Existe também uma baixa demanda das capacitações dos profissionais de saúde diante de determinados temas. Há uma demanda alta da população adscrita na minha equipe com problemas de saúde mental. Vejo que existe uma dificuldade de todas as equipes da unidade em saber lidar com esses pacientes e com determinadas situações. A cultura de encaminhar ao especialista é maior e mais fácil, do que promover a capacitação adequada de todos os profissionais da unidade.
Como forma de intervenção nas reuniões de equipe irei trabalhar a temática do acolhimento com as agentes comunitárias, explicando a importância dessa nova forma de atendimento, bem como orientando com as queixas dos pacientes. Com o objetivo de promover melhor inserção da minha equipe nessa temática solicitei à direção local uma nova capacitação, de caráter obrigatório com todos os profissionais da unidade. Pretendo ainda fazer minicursos e estudo de casos de pacientes que vêm para o acolhimento mostrando sua importância nos atendimentos diários, bem como na orientação adequada que deve ser dada aos pacientes sobre quando procurar atendimento médico do acolhimento. Com relação a saúde mental irei propor à direção da unidade que sejam solicitadas perante secretaria de saúde capacitações dos profissionais de saúde sobre o tema. Para que assim possam conduzir com mais eficácia tal demanda, bem como prestar serviço de qualidade na atenção básica sem realizar tantos encaminhamentos ao especialista.
Durante a reunião da equipe solicitei os indicadores que fazem parte do PMAQ para que pudesse ter noção desses números e também traçar melhores formas de vigilância desses itens. Fui informado pela equipe que o registro era manual e realizado em livros, separados por grupos e/ou patologias. Esses registros são alimentados de acordo com as demandas internas da equipe. Os livros são distribuídos da seguinte forma: pacientes inseridos no programa de hiperdia; pacientes com transtornos mentais; pacientes com doenças sexualmente transmissíveis; pacientes acamados; gestantes; pacientes com tuberculose/hanseníase; atendimentos da enfermagem; grupos de risco e citologias realizadas. Os dados eram registrados por micro área, de acordo com a população adscrita por cada agente comunitária. Percebi que muitos registros não eram e não haviam sido anotados, gerando subnotificação interna, tanto da equipe, como da unidade de saúde. Não há relato da equipe bucal. Também não há relato dos números de encaminhamentos realizados aos especialistas. Existe um relatório quadrimestral, realizado por todos da equipe onde são repassados esses dados para a direção da unidade. O relatório é manual e depende desses dados coletados por toda a equipe. Neste momento, é que percebo o quanto de dados são perdidos devido a forma como era registrado.
Atualmente, na unidade em que trabalho, está sendo utilizado o E-Sus. A Unidade de Nova Natal foi pioneira em implementar esse sistema há cerca de 01 ano. Dentro do E-Sus existe o CDS e o Prontuário Eletrônico (PEC). Foram realizados capacitações dos profissionais para implementação adequada e utilização do sistema por todos os funcionários da unidade. Atualmente, os registros dos atendimentos dos pacientes são feitos no PEC ou no CDS, onde são inseridos dados de atendimentos médicos incluindo as patologias, atendimentos da enfermagem, vacinas, solicitação de exames, encaminhamentos, visitas domiciliares, realização de grupos prioritários de cada equipe e capacitações realizadas. Ao final de cada semana, quinzena ou mês pode ser gerado um relatório de todos esses dados, desde individual até de todo o funcionamento da unidade, o que acaba sendo mais fidedigno com relação a demanda da unidade. Mesmo com esse sistema alguns profissionais relutam em utilizar. Talvez por demandar mais tempo, compromisso e frequentes capacitações.
Por se tratar de um sistema que demanda tecnologia aliada à informática, é um instrumento que facilita o trabalho de toda a equipe, bem como promove melhor avaliação dos indicadores e permite uma menor subnotificação interna. É essencial seu bom funcionamento, pois fornece dados de todos os atendimentos realizados, exames, vacinas, curativos, medicações prescritas, tudo de forma eletrônica e de rápido acesso. Além, de evitar a problemática de perda de prontuário de paciente. Esse sistema permite melhor e mais eficaz abordagem dos indicadores, bem como monitoramento de estratégias que permitam promover uma melhor qualidade dos serviços à população.
A realização da microintervenção, por meio da autoavaliação do AMAQ, promoveu uma melhor interação da equipe, que por alguns momentos é dificultada pelo grande volume de trabalho e de atendimentos feitos de forma individual. Esse momento possibilitou conhecer as reais e principais fragilidades da equipe e da unidade de saúde como um todo. Foi possível, também traçar metas e estratégias de melhoria dos serviços fornecidos, bem como tornar todos da equipe mais atuantes e responsáveis pelas ações e modificações que precisam ser realizadas com o intuito de fornecer o melhor atendimento.
Ponto(s)