28 de julho de 2018 / SEM COMENTÁRIOS / CATEGORIA: Relatos

Titulo : Ontem a “invisibilidade” do doente mental. Agora A linha de cuidado em Saúde Mental começa por minha equipe.

ESPECIALIZANDO: KATIA PENA INFANTE

ORIENTADOR: CLEYTON CEZAR SOUTO SILVA.

          A Estratégia de Saúde da Família (ESF) e a Reforma da Assistência Psiquiátrica Brasileira (RAPB) têm trazido contribuições importantes para a reformulação da atenção em saúde no País. Ambas defendem os princípios básicos do Sistema Único de Saúde (SUS) e propõem uma mudança no modelo de assistência à saúde, privilegiando a descentralização e a abordagem comunitária/familiar em detrimento do modelo tradicional, centralizador e voltado para o hospital. Tais políticas trouxeram avanços no processo de municipalização da saúde e têm contribuído para a transformação do modelo assistencial vigente. Tais iniciativas vêm sendo estimuladas pela Organização Mundial da Saúde (OMS) nos últimos anos (PEREIRA et al, 2018).

          No Brasil, a saúde mental passou por transformações a partir da reforma psiquiátrica, iniciada na década de 1970. Esta reforma compreende um conjunto de transformações permanentes nos campos teóricos, assistenciais, jurídicos e socioculturais, marcados por tensões, conflitos e desafios ao propor a retirada do paciente com transtorno mental dos hospitais psiquiátricos e lhe proporcionar cuidados necessários na comunidade (GAZIGNATO et al, 2014).

           A atenção básica surge como eixo estruturante do sistema, pois, além de ser ‘porta de entrada’, gerencia os encaminhamentos, coordena e integra o trabalho realizado por outros níveis de atenção, outros equipamentos ou por terceiros e acompanha, de maneira longitudinal, a saúde do paciente durante a vida. (GAZIGNATO et al, 2014).

          Durante o estudo do módulo “Atenção à Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde” conheci a politica nacional de saúde mental no Brasil e compreendi o desafio de atuar de forma mais proativa na saúde mental, com esta motivação fizemos um analise e debate em minha equipe, utilizamos o AMAQ e avaliamos os padrões 4.36: A equipe de Atenção Básica desenvolve ações para as pessoas com sofrimento psíquico em seu território e 4.37: A equipe de Atenção Básica desenvolve ações para os usuários de álcool e outras drogas no seu território.  Refletimos que o atendimento aos pacientes com problemas de saúde mental ainda è o desafio em nossa área de abrangência. Reconhecemos que realmente não temos um olhar para a saúde mental e  não acionamos como fazemos com o pré-natal, a hipertensão, diabetes, essas outras doenças, pelo que os  pacientes com sofrimento psíquico  não tem a atenção continuada pela equipe, sendo a ESF um importante articulador da rede de saúde mental.

          Refleti com a equipe que nas aulas do modulo conheci a rede de atenção à saúde mental e compreendi que nenhum serviço é resolutivo se isolado. É necessária a articulação em rede, mas para isso é importante conhecer os serviços da rede. A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de nosso município, Santana/AP esta incompleta e não funciona de forma articulada, tendo a Atenção Primária à Saúde com lacunas como porta de entrada e coordenadora, um Centro de Atenção Psicossocial infantil (CAPSi) , um   Centro de Atenção Psicossocial álcool e outras drogas  (CAPS ad) , não temos CAPS para adultos , desde há poucos dias começou a oferecer consultas de psiquiatria em minha UBS , Policlínica Maria Tadeu Aguiar , só duas vezes na semana , ou qual è insuficiente para todo o município, as emergências psiquiátricas são encaminhadas , para a capital do estado , município de Macapá, utilizando o serviço móvel de urgência (SAMU) para o hospital de emergência   e os casos que precisam de internação no serviço de psiquiatria do hospital geral , mas não funciona um sistema de referência e contra referência, não recebemos a contra referência dos pacientes que são atendidos nestas instituições existindo descontinuidade das ações tanto pelo serviço de atenção básica como pelo serviço especializado, com falhas na comunicação .

          Além de que esta incompleta a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de nosso município, reconhecemos nos debates que temos falhas porque não temos identificados todos os pacientes de nossa área em sofrimento psíquico, não acompanhamos com a continuidade que seu cuidado precisa, não funcionamos como porta de entrada e não buscamos a informação do tratamento do paciente na especialidade, Ainda tendo um CAPSi e um CAPS ad   não temos identificados os pacientes de nossa área que são atendidos nestes serviços , além de que desconhecíamos de sua existência, a falha está presente em ambos serviços, pois os CAPS tampouco  não fornecem a contrarreferência .

          Identificamos que a equipe não possuiu registro dos usuários em uso crônico de benzodiazepínicos, antipsicóticos, anticonvulsivantes, antidepressivos, estabilizadores de humor, bem como os ansiolíticos , nem registro dos usuários com necessidade decorrente do uso de crack, álcool e outras drogas, pelo que elaboramos duas planilhas(Anexo V , Anexo VI) que vão permitir o registro e acompanhamento desses pacientes. Incluímos uma coluna nas planilhas para acompanhar a visita domiciliar, porque possibilita conhecer a realidade do portador de transtorno mental e sua família. É uma forma de incluir a família no tratamento e, sobretudo, estreitar o vínculo com a equipe, esclarecer dúvidas sobre a doença mental e oferecer orientações para o manejo de comportamentos do familiar com sofrimento mental, com o objetivo de melhorar o convívio entre os familiares.

           Acordamos na reunião da equipe que os ACS vão visitar inicialmente em todas as casas, para fazer um levantamento, identificar todos os pacientes com doença mental, que usam medicamentos controlados, onde são  acompanhados, e assim conhecer a realidade de nossa área  , planejar e desenvolver  as ações que precisam .

          Lembrei que antes de iniciar meu trabalho nesta UBS, muitos usuários ou familiares tinham o hábito de não agendar as consultas para renovação de receita, apenas chegavam à recepção e pediam à recepcionista ou ao ACS para encaixá-lo dizendo: “É só pra doutora renovar a receita que venceu, tá aqui a receita velha”. Essa prática tanto dos usuários quanto dos próprios profissionais já estava bastante difundida, e eu tive a árdua missão de explicar que o registro das informações em prontuário médico é obrigatório, tanto nos aspectos éticos quanto legais. Além disso, a consulta médica é uma oportunidade para conhecer os usuários, identificar seus problemas e aplicar as intervenções necessárias de forma integral.

          Nossa população  tem a percepção equivocada de que o médico generalista encontra-se na UBS apenas para renovar a sua receita e que o acompanhamento de seus transtornos mentais é feito exclusivamente pelo psiquiatra. Segundo o Caderno de Atenção Básica de Saúde Mental (CAB Nº 34, 2013) “os generalistas podem compartilhar o cuidado do transtorno mental com o psiquiatra, diminuindo o número necessário de visitas ao psiquiatra”. De certa forma, esta concepção foi imposta a eles pelos médicos que me precederam que se limitavam a renovar a receita controlada e negligenciavam outros aspectos fundamentais do cuidado. Inicialmente os usuários ficaram desconfortáveis por ter que agendar as consultas com antecedência e ter que aguardar o atendimento como os demais.

          O agente comunitário de saúde (ACS) é um dos principais atores da Estratégia de Saúde da Família (ESF), vários afirmaram que não sabiam da existência do CAPS ad  e CAPSi , além disso solicitaram treinamento para o atendimento , sobre qual seria a melhor forma de trabalhar, abordar e cuidar das pessoas com sofrimento psíquico/transtorno mental e suas famílias , alguns expressaram medo do doente mental,  e que realmente não prestaram atenção ao acompanhamento desses pacientes porque não foi nunca antes analisado na UBS.

          Ficou evidente a necessidade de ampliar a discussão sobre o apoio matricial em saúde mental como uma possibilidade de fortalecer o desempenho qualificado da equipe e cuidado de nossos pacientes. 

          O apoio matricial (AM) é um dispositivo pedagógico-assistencial que busca instituir uma relação entre profissionais generalistas e especialistas pautada na corresponsabilização do cuidado. Essa tecnologia tem sido bastante utilizada no campo da saúde mental por equipes de Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), Núcleos de Apoio à Saúde da Família e Residências Médicas e Multiprofissionais em Saúde no apoio a equipes de atenção básica (AMARAL et al, 2018).

          Acompanhada de minha enfermeira, e a psicóloga do NASF de minha UBS fomos ate o CAPS ad onde fizemos uma reunião com sua diretora, quem também é atualmente a coordenadora de saúde mental no município, e explicamos as dificuldades e problemas discutidos na equipe, a mesma ficou satisfeita de nossa visita, sobre todo pela coincidência na motivação, interesse  e reponsabilidade pela melhoria do trabalho no cuidado dos pacientes com sofrimento psíquico/transtorno mental ,e em lograr articulação dos pontos de atenção com que conta a Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de nosso município, assim como fortalecer o apoio matricial , ou qual será entendido as demais equipe da ESF do município.

          Como fortaleza o estudo do modulo Atenção à Saúde Mental na Atenção Primária à Saúde e a realização da microintervenção nos permitiu identificar as principais dificuldades no atendimento as pessoas acometidas por sofrimento psíquico/transtorno mental, conhecemos A Rede de Atenção Psicossocial (RAPS) de nosso município e região, e conseguimos estabelecer articulações para o apoio matricial com a coordenação de saúde mental do município, do CAPS ad , CAPSi, e o NASF que vai incorporar e aprimorar nossas competências de cuidado em saúde mental na  prática diária. Foi um despertar e deixou uma mudança na atitude dos membros da equipe, maior compreensão do que acontece com pessoas acometidas por sofrimento psíquico/transtorno mental, da responsabilidade no seu cuidado, mudando a “invisibilidade” que ate hoje existia , acho que vamos ter maior aproximação aos casos, e ser realmente a porta de entrada e conseguir articular o acompanhamento da rede de atenção.  Assim como uma melhor pontuação  na próxima avaliação do PMAQ.

          Continuo satisfeita de estar fazendo este curso de especialização que aporta as ferramentas para a reorganização e mudanças do processo de trabalho da equipe. Foi estimulante escutar a membros da equipe que cada dia, em cada reunião, a gente vai aprendendo um pouquinho mais, os resultados virão a médio e longo prazos, mas já conseguimos a participação ativa de todos  na discussão e na identificação dos problemas, assim com no planejamento e desenvolvimento das ações. Estamos no caminho certo para alcançar maior capacidade resolutiva, nos últimos quatro meses se multiplicaram o vinculo entre nós e a motivação, responsabilidade e integralidade com o cuidado da saúde de nossa população.

 

Referencias

•          PEREIRA, Alexandre de Araújo; ANDRADE, Daniela Correia Leite. Estratégia Educacional em Saúde Mental para Médicos da Atenção Básica. Rev. bras. educ. med.,  Brasília ,  v. 42, n. 1, p. 6-14,  Jan.  2018 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0100-55022018000100006&lng=en&nrm=iso>. access on  18  July  2018.  http://dx.doi.org/10.1590/1981-52712015v41n4rb20160021

•          GAZIGNATO, Elaine Cristina da Silva; SILVA, Carlos Roberto de Castro e. Saúde mental na atenção básica: o trabalho em rede e o matriciamento em saúde mental na Estratégia de Saúde da Família. Saúde debate,  Rio de Janeiro ,  v. 38, n. 101, p. 296-304,  June  2014 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0103-11042014000200296&lng=en&nrm=iso>. access on  18  July  2018.  http://dx.doi.org/10.5935/0103-1104.20140027.

•          AMARAL, Carlos Eduardo Menezes et al . Apoio matricial em Saúde Mental na atenção básica: efeitos na compreensão e manejo por parte de agentes comunitários de saúde. Interface (Botucatu),  Botucatu,  2018 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1414-32832018005005005&lng=en&nrm=iso>. access on  18  July  2018.  Epub May 17, 2018.  http://dx.doi.org/10.1590/1807-57622017.0473;

•          Brasil. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Saúde mental / Ministério da Saúde, Secretaria de Atenção à Saúde, Departamento de Atenção Básica, Departamento de Ações Programáticas Estratégicas. – Brasília : Ministério da Saúde, 2013. 176 p. : il. (Cadernos de Atenção Básica, n. 34)

 

•         

 

 

                                                                                    ANEXO V

                                                                  UBS MARIA TADEU AGUIAR

                                                 ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA: EQUIPE 02

 Registro dos pacientes com sofrimento psíquico e em uso crônico de benzodiazepínicos, antipsicóticos anticonvulsivantes, antidepressivos, estabilizadores de humor e ansiolíticos.

Dra. Katia Pena Infante.

 

 

NO.

 

 

NOMES E SOBRENOMES

 

 

S

E

X

O

          

I

D

A

D

E

           

 

          ACS

 

 

APP

DOENÇA PSÍQUICA.

 

 

MEDICAMENTO

CONTROLADO

 

 

ACOMPANHAMENTO

NASF

 

 

ACOMPANHAMENTO PSIQUIATRIA

 

 

PARTICIPAÇÃO EM ATIVIDADES GRUPAIS

 

 

DATA

DA

PRÓXIMA CONSULTA                        

 

 

VISITA DOMICILIAR

 

 

OBSERVAÇÃO

 

1.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                               

 

 

                                                                             

 

 

                                                                                    ANEXO VI 

                                                                  UBS  MARIA TADEU AGUIAR

                                                    ESTRATÉGIA DE SAÚDE DA FAMÍLIA: EQUIPE 02 

                              ACOMPANHAMENTO DE PACIENTES USUÁRIOS DE ÁLCOOL E OUTRAS DROGAS.

 

Dra. Katia Pena Infante.

 

 

NO

 

 

NOMES E SOBRENOMES

 

 

SEXO

 

I

DADE

 

 

ACS

APP

 

HÁBITOS TÓXICOS

 

 

ACOMPANHAMENTO

NASF

 

 

ACOMPANHAMENTO NO CAPS AD

 

 

DATA DA PRÓXIMA CONSULTA

 

 

VISITA DOMICILIAR

 

 

OBSERVAÇÕES

 

1.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

2.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

4.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

5.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

6.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

7.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

8.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

9.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

10.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

                                                                                                                       

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