RELATO DE EXPERIÊNCIA
TÍTULO: O ACOLHIMENTO EM EQUIPE COMO ESTRATÉGIA DE APERFEIÇOAMENTO PARA A INTEGRALIDADE.
ESPECIALIZANDO: SACHIL GRETTEL NEYRA TAMAYO
ORIENTADOR: RICARDO HENRIQUE VIEIRA DE MELO
Desejando a escuta aos usuários da UBS, criou-se o acolhimento em grupo, espaço semelhante a um grupo de sala de espera com foco em concepção ampliada de saúde, tem como objetivo a construção de conhecimentos na colectividade e o fortalecimento do usuário como protagonista, fundamentando-se na concepção de educação popular. Os temas abordados foram: funcionamento e qualidade dos serviços de saúde, aspecto de trabalho, organização e conceitos de saúde a refletir, importância e utilidade desta prática no processo de territorialização e maior aproximação entre profissionais e usuários.
Este relato de experiência foi desenvolvido pela equipe multiprofissional da UBS Colonia Sergipe que como principal preocupação tomou a reorganização dos fluxos e serviços. Este pode ser atendido como um dos conceitos que se articula ao princípio da integralidade. Inicialmente alterou-se o modo de distribuição das consultas médicas diárias até então, um cartaz informava o número de consultas disponibilizadas no dia. Apesar de ter sido um pedido da população, considerou-se que era uma forma de “expulsar” os usuários que ao visualizarem a fila existente e o número afixado no cartaz acabavam por ir embora.
Havia uma chamada reprimida que não chegava a ser conhecida. Reforçava-se a lógica médico centrada pois a população e por vezes a equipe não vislumbrava a possibilidade de outro profissional que não o médico. O cartaz foi extinguido e se percebeu uma maior concentração de pessoas na entrada da UBS a fim de organizar a “fila” e otimizar o trabalho do acolhedor, implantou-se a distribuição de fichas coloridas conforme o tipo de demanda. Buscou-se trabalhar com a ideia do acolhimento como postura desenvolvida por todos os profissionais, envolvendo desde o vigilante, a auxiliar de higienização e de enfermagem procurando maior vínculo com a comunidade.
Percebeu-se que a demanda espontânea pouco tinha de voluntária. Houve necessidade de escutar a voz da comunidade e ampliar o espaço de escuta dentro da UBS. Ainda se percebia a necessidade de um espaço que não dependesse de um tema já instituído como geralmente ocorre nos grupos, e que não estivesse vinculado a um procedimento ou ação do serviço, como ocorre no acolhimento individual e nos encontros que antecedem consultas ou entrega de medicamentos.
O acolhimento em grupo, na prática, configura-se como um espaço semelhante a um grupo de sala de espera, com o foco em uma concepção ampliada de saúde. Tem como objetivo a construção de conhecimentos na coletividade em busca de fortalecimento do usuário como protagonista das ações do serviço de saúde, fundamentando-se nos pressupostos da educação popular, processo grupais e análise institucional. Neste relato são discutidos os primeiros encontros, desenvolvidos como experiência piloto.
Eram coordenados por duas facilitadoras e registrados por uma relatora, com duração aproximada de uma hora. Ocorriam concomitantemente ao acolhimento individual, enquanto os usuários aguardavam seus atendimentos. Buscando que fosse um espaço autorregulado, tendo como ponto de partida a apresentação da equipe e do objetivo dessa atividade. A partir da fala inicial, muitos ficavam em silêncio, sendo necessário estimular a participação com a apresentação dos presentes. Algumas vezes acabou-se por dirigir o encontro para questões como a origem dos usuários e, para os não naturais da cidade, o motivo de terem vindo para Indiaroba. Percebeu-se que a maioria dos que procuravam a UBS Colonia Sergipe havia migrado em busca de trabalho e melhores condições de vida ou de tratamentos de saúde.
Questões relativas ao adoecimento no/por trabalho apareceram como um dos pontos centrais para abusca por atendimentos na UBS, tanto em virtude do estresse laboral quanto pelas dificuldades advindas de sua falta(depressão, empobrecimento, dificuldade de acesso a outros cuidados). Esta constatação tornou clara a necessidade de promover uma maior articulação com a “rede” a fim de desenvolver atividades intersetoriais com instituições de inserção social e formação profissional. Pode ser estendida como o conjunto das várias secretarias que oferecem os serviços necessários para a conquista da saúde, bem como os serviços da comunidade (cursos, lazeres, esportes, escolas, igrejas etc.).
Em ambos os casos implica a responsabilidade dos profissionais em oferecer cuidados integrais e não o simples encaminhamento de referência e contra referência. Sendo vista como recurso terapêutico, potencializa a relação entre os usuários e serviços de saúde. Em muitas ocasiões vieram críticas quanto a qualidade dos serviços de saúde, grande tempo de espera pelas consultas, dificuldades de encaminhamentos, entre outras. Para a equipe de acolhedora, era difícil não dar respostas prontas mas, buscava-se lançar questionamentos, argumentos e esclarecimentos que os levassem a reflexão e as próprias conclusões.
Através do estudo realizado constata-se que o acolhimento é uma tecnologia leve bastante complexa, sendo sua implantação um desafio para as equipes de Saúde da Família. Vivenciamos ainda um modelo rotativista no quais as equipes enfrentam dificuldades no objetivo de fortalecer o SUS. Efetivar tal objetivo significa um desafio para os profissionais da saúde, os quais ainda acreditam em um modelo hospitalocéntrico, centrado na figura do médico, e não se encontram dispostos as mudanças favoráveis a população.
Essa desorganização resulta em baixa equidade e reprodutividade no cuidado, além de provocar uma não adesão aos grupos operacionais e não aderência ao tratamento proposto. Nota-se que é grande o numero de usuários descontentes e insatisfeitos, e é grande a sobrecarga de trabalho dos profissionais que acabam por ficar desgastados, angustiados edesmotivados.
Uma forma de resolver essa questão seria através da organiza§ao da demanda transformando a demanda espontânea em programada, por meio da implantação do acolhimento. O acolhimento é considerado como modificador radical do processo de trabalho, em especial dos profissionais que realizam a assistência, visto que a organização doserviço passa a ter a equipe como peça central no atendimento aos usuários. Ele vem para organizar a demanda, através da humanização do serviço e do respeito ao usuário. Essa revisão será de grande valia para as equipes de saúde que desejam implantar o acolhimento (GOMES; PINHEIRO, 2005; SOUSA et al., 2008).
Com base nessas considerações, o estudo se apresenta como uma possibilidadepara aprimoramento dos conhecimentos, contribuindo na construção do Acolhimento, processo que torna a assistência a saúde digna e de qualidade, com a participação de todos os atores sociais envolvidos. O Acolhimento visa humanizar o processo de trabalho criando vínculos entre profissionais e usuários propiciando resolução dos problemas e comunidade do cuidado, facilitando o processo de trabalho.
O acolhimento almejado pressupõe um conjunto formado por escuta interessada, identificação de problemas é intervenções resolutivo para seu enfrentamento ampliando a capacidade da equipe de responder as necessidades reduzindo a centralidade das consultas médicas e melhor utilizando o potencial dos demais profissionais. E ainda propõe garantir acesso, humanizar o serviço, estreitar os vínculos com a comunidade, fortalecer a relação entre os membros da equipe,estimular a participação do usuário ao valorizar suas opiniões, buscando uma relação mais solidária entre os trabalhadores de saúde e entre estes a população usuária do serviço (WENDHAUSEN; SAUPE, 2003; HENNINGTON, 2005).
As Equipes de Saúde da Família precisam incorporar a ideia de que sua responsabilidade não se limita as paredes da unidade e que causar impactos nos problemas significa trazer respostas que que mudem o quadro de saúde da sua territorialidade. Organizar um serviço de saúde significa montar algo que altere as condições de saúde do território, interferindo positivamente no modo de produção dos riscos e dos sofrimentos. Há um grande desafio de articular os diferentes setores em uma questão compartilhada que responda aos usuários com acolhimento, vínculo e responsabilidade. Concluindo, faz-se necessário implantar um sistema político efetivo, que tenha como prioridade a implantação do acolhimento nos serviços de saúde, visando elevar o nível de produção e bom atendimento, além de propiciar melhor vínculo na ralação equipe de Saúde e População. E em decorrência dessa estratégia de serviço uma reorganização do SUS, a partir da Atenção Primária de Saúde.
Que os profissionais envolvidos, neste processo,se concretizem da real importância desta implantação e se proponham a lutar para que esta se torne uma realidade promissora, no setor de grande abrangência, que é a área de Saúde.
Referências
GOMES, M. C. P. A.; PINHEIRO, R. Acolhimento e vínculo: práticas de integralidade na gestão do cuidado em saúde em grandes centros urbanos. Interface (Botucatu), Botucatu, v. 9, n. 17, p. 287-301, 2005.
HENNINGTON, É. A. Acolhimento como prática interdisciplinar num programa de extensão universitária. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.21, n.1, p. 256-265, 2005.
SOUZA, E. C. F. et al. Acesso e acolhimento na atenção básica: uma análise da percepção dos usuários e profissionais de saúde. Cad. Saúde Pública, Rio de Janeiro, v.24, supl.1, p. s100-s110, 2008.
WENDHAUSEN, Á.; SAUPE, R. Concepções de educação em saúde e a estratégia de saúde da família. Texto & contexto enferm. v.12, n.1, p.17-25, 2003.
Ponto(s)