TÍTULO: “PRIMEIROS DIAS DE IMPLANTAÇÃO DO ACOLHIMENTO”
ESPECIALIZANDO: Flávia Nathália de Góes Chaves
ORIENTADOR: Isaac Alencar Pinto
COLABORADORES: Ivanilsa Freire da Rocha (Enfermeira da Equipe 96 e Responsável Técnica da USF Felipe Camarão III)
O acolhimento é uma prática presente em todas as relações de cuidado, nos encontros reais entre trabalhadores de saúde e usuários, nos atos de receber e escutar as pessoas (BRASIL, 2013). A diretriz do acolhimento foi introduzida nos serviços do Sistema Único de Saúde (SUS) há cerca de 20 anos, buscando ampliar o acesso e permitir mudanças no desenvolvimento do trabalho em saúde. Isso seria possível ao modificar as relações entre trabalhadores, gestores e usuários para a promoção de vínculos, compartilhamento da responsabilização e resolubilidade (CAMELO et al., 2016).
Segundo Souza et al. (2008), acolhimento se apresenta, portanto, como forma de inclusão dos usuários. O cuidado em saúde se faz aplicando o princípio da integralidade e colocando o usuário como protagonista. É este que define, com formas e graus variados, o que é necessidade de saúde para ele, podendo apresentá-la enquanto demanda ao serviço de saúde. Porém, a ampliação de acesso deve, também, contemplar adequadamente tanto a agenda programada quanto a demanda espontânea (BRASIL, 2013).
Dessa forma, o acolhimento propõe modificar a lógica de organização e de funcionamento do serviço de saúde, por meio de três ações: (a) atender a todos que buscam os serviços de saúde, e garantindo a acessibilidade universal; (b) reorganizar o processo de trabalho, deslocando seu eixo central do médico para uma equipe multiprofissional; (c) melhorar a relação trabalhador-usuário através de posicionamentos humanitários de solidariedade e de cidadania (SOUZA et al., 2008).
A partir deste entendimento, após nossa reunião de equipe do dia 17/05/2018, decidimos aplicar o acolhimento, embora como modelo experimental, em dois dias de atendimento. O motivo desta experiência ser nomeada como “experimental” se deve ao fato desta técnica ainda não fazer parte do dia-a-dia de nossa unidade e por não termos experiências em nossas práticas profissionais anteriores quanto ao assunto, por não termos uma população ciente e educada à respeito do que significa o acolhimento em saúde e já possuirmos uma agenda com consultas pré-agendadas.
Com base nisto, a matriz desta microintervenção se desenvolveu. Definimos dois dias para a aplicação do acolhimento (23 e 24 de maio de 2018), com a atuação da médica e da enfermeira da equipe. Dessa forma, devido à necessidade de atendimento dos pré-agendados e dos que seriam atendidos através do acolhimento, tivemos que reduzir o tempo em que este deveria ocorrer. Portanto, médica e enfermeira permaneceriam realizando o acolhimento das 8:00 às 9:30h de cada dia.
A agenda médica foi organizada conforme se orienta no acesso avançado: 30% em consulta previamente agendada e 70% para demanda espontânea (BRASIL, 2013). Porém, o mesmo não foi feito em relação à agenda da enfermeira, sendo esta organizada conforme a profissional preferiu. Durante o turno de acolhimentos, a demanda que chegasse seria organizada em consultas no dia (turnos matutino e vespertino) e após esta totalmente preenchida, os demais pacientes seriam agendados em datas mais próximas disponíveis. Seria usada a classificação de risco e vulnerabilidade para esta definição.
Como em nossa unidade não dispomos de sala livre para a realização do acolhimento, este seria realizado na entrada da unidade e em conjunto médica-enfermeira. Pedimos que os agentes comunitários de saúde avisassem à população que nesses dias teríamos o acolhimento.
Dessa forma, nos dias e horários programados, e após mais estudos a respeito do assunto, colocamos em prática o que seria o primeiro passo para alcançar novas e melhores formas de prestação de serviços em saúde (Imagens 12 e 13). Acolhemos cerca de trinta e cinco pessoas no primeiro dia e quarenta no segundo, porém, neste último tivemos que interromper o acolhimento ainda com um número de pessoas aguardando, uma vez que precisávamos iniciar os atendimentos.

Imagem 12: Acolhimento Equipe 96 – USF Felipe Camarão III, maio 2018.
Imagem 13: Acolhimento Equipe 96 – USF Felipe Camarão III, maio 2018.
Portanto, como pontos negativos, avaliamos que não foi possível pôr em prática da forma preconizada (por todo o tempo de funcionamento da unidade), pois médica e enfermeira estavam envolvidas e não havia para quem encaminhar os pacientes (o fluxo estava amarrado). Por esse motivo, ficou evidente que não é possível manter o médico realizando o acolhimento.
Além disso, a falta de uma sala apropriada tornou o ambiente pouco acolhedor e indiscreto para o paciente. E ainda, acolher junto médico-enfermeiro, perde-se a oportunidade de otimizar esse acolhimento com cada um acolhendo um número de pessoas, uma vez que era impossível cada uma conversar com um paciente diferente, afinal, estávamos em um mesmo recinto.
Não optamos por colocar as técnicas de nossa equipe nesta função, pois há uma grande necessidade de capacitá-las quanto à classificação de risco e para onde encaminhar o paciente (médica ou enfermeira). Outra dificuldade está no não conhecimento da população a respeito do conceito do acolhimento. Muitos chegaram querendo atendimento imediato, mesmo não sendo classificados como atendimento de urgência, e, por este motivo, perdíamos muito tempo tentando explicar a população o porquê de um caso “x” ser prioridade em relação a outro. Neste quesito, portanto, foi bastante frustrante, pois alguns pacientes se exaltaram e nos faltaram com o respeito (embora a minoria).
Como ponto positivo, a agenda tornou-se mais dinâmica, e para mim, como médica, pude ter um conhecimento prévio dos casos e oportunidade de uma pesquisa rápida daqueles em que sentia necessidade de relembrar, mesmo que fossem alguns poucos minutos antes do paciente entrar no consultório. Apesar de os outros membros não terem se disponibilizado a fazer o acolhimento, nos deram certo apoio organizando a fila, separando os prontuários e preparando os pacientes para a consulta propriamente dita.
Dessa forma, a experiência foi em sua maioria positiva, boa parte da população aprovou e nos perguntou quando faríamos novamente. Porém, acredito que “pulamos” algumas etapas importantes. Primeiramente, se faz imprescindível a capacitação da equipe como um todo sobre o conceito e aplicabilidade do acolhimento, com enfoque maior às técnicas de enfermagem, as quais poderiam ser a principais responsáveis pela sua adequada execução.
A classificação de risco e vulnerabilidade deve estar bem compreendidas, além de quais pacientes devem ser atendidos pelo médico ou pela enfermagem, para não sobrecarregar somente um desses profissionais. Deve-se ainda melhorar o contato e a interface entre as agendas da médica e da enfermeira, situação esta que será resolvida quando o Prontuário Eletrônico do Cidadão (PEC) estiver atuante em nossa unidade e tivermos uma sala apropriada para acolher.
Talvez um dos principais pontos de melhoria necessários, está na importância de uma educação prévia da comunidade a respeito do assunto, para que esta se adeque a este novo funcionamento e perceba que se trata, de fato, de uma ação em prol de maior qualidade de atendimento. E é este o ponto que nós resolvemos focar a partir de agora.
A ideia da nossa equipe será aproximar a população de nosso território à unidade, através de palestras a respeito do acolhimento. E para isso, marcaremos uma reunião com as pessoas da comunidade ditas mais influentes, para que estas possam nos auxiliar na conscientização de todos.
Além disso, manteremos o nosso método de marcação de consultas atual, que se faz a partir do contato direto do usuário com as técnicas de enfermagem, detentoras da agenda médica, porém, capacitando-as para que esta marcação seja guiada pelo protocolo de risco e vulnerabilidade e tornando-a mais profissionalizada.
REFERÊNCIAS:
Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Acolhimento à demanda espontânea. 1. reimpr. Brasília: Ministério da Saúde, 2013. 56 p. (Cadernos de Atenção Básica; n. 28, v 1).
CAMELO, Marina Shinzato et al. Acolhimento na atenção primária à saúde na ótica de enfermeiros. Acta Paulista de Enfermagem, Brasília, v. 29, n. 4, p.463-468, 29 ago. 2016. Bimestral. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/ape/v29n4/1982-0194-ape-29-04-0463.pdf>. Acesso em: 27 maio 2018.
SOUZA, Elizabethe Cristina Fagundes de et al. Acesso e acolhimento na atenção básica: uma análise da percepção dos usuários e profissionais de saúde. Cadernos de Saúde Pública, [s.l.], v. 24, n. 1, p.100-110, 2008. FapUNIFESP (SciELO). http://dx.doi.org/10.1590/s0102-311×2008001300015. Disponível em: <http://www.scielo.br/pdf/csp/v24s1/15.pdf>. Acesso em: 27 maio 2018.
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