O GRANDE DESAFIO DO ACOLHIMENTO
ESPECIALIZANDO: RANIEL XAVIER DA CUNHA BEZERRA
ORIENTADORA: DANIELE VIEIRA DANTAS
Durante o mês de maio de 2018, em nossa Unidade Básica de Saúde (UBS) de Igapó, foi-nos lançado o desafio do acolhimento à demanda espontânea. Acolher com dignidade e equidade é um dos grandes desafios da atenção básica visto que a tarefa de acolher, escutar, problematizar e reconhecer como legítima a demanda do usuário não é uma tarefa simples. Apesar das dificuldades, o acolhimento estabelece uma relação sólida e de confiança entre o usuário e o profissional ou a equipe, possibilitando um cuidado justo, ampliado e integral.
Com o objetivo de nos aperfeiçoarmos para implantação do acolhimento, fizemos reuniões (Figura 1) para discutir de que forma poderíamos reestruturar o nosso processo de trabalho para aderir a essa estratégia. Inicialmente assistimos um vídeo de perguntas e respostas com Túlio Franco, professor adjunto da Universidade Federal Fluminense (NÚCLEO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO EM SAÚDE, 2013).
A partir desse vídeo pudemos entender que acolhimento é uma prática dos trabalhadores em saúde, é uma forma de produzir o cuidado de saúde e acontece onde existe o encontro entre o trabalhador e o usuário de saúde, ou seja, não é um novo serviço na UBS. Para tal seria então necessário fazermos a escuta qualificada do problema de saúde do usuário e se colocar no lugar dele, estabelecendo assim um vínculo.

Figura 1. Reunião realizada com a equipe da UBS de Igapó.
Através das explicações contidas nesse vídeo pudemos compreender que no modelo tradicional todo o fluxo de demanda espontânea é encaminhado ao médico, partindo-se da ideia antiga de que apenas esse profissional de saúde tem a capacidade de resolver o problema de saúde. Contudo, no acolhimento, todos os profissionais de saúde podem resolver problemas de saúde dentro de uma certa competência técnica e divisão técnica do trabalho que inclui a formação e a experiência prática de vida. O que se observa quando todo o fluxo de demanda espontânea é encaminhado ao médico é que ocorre sobrecarga desse profissional e não se consegue ter resolutividade total das problemáticas trazidas pelos usuários, de modo a sempre ter um número grande de pessoas sem atendimento e, consequentemente, insatisfeitas. Para isso, entendemos que não deve haver uma relação hierárquica entre os profissionais, mas um trabalho organizado de forma solidária uma vez que isso alicerça o trabalho em equipe e o trabalho em rede entre os trabalhadores.
Posteriormente nos reunimos e discutimos os desafios para implantação do acolhimento à demanda espontânea. A equipe não demonstrou entusiasmo para introdução dessa estratégia, apontando diversas dificuldades. Primeiramente a questão do espaço físico da unidade, visto que a UBS de Igapó tem três equipes de Estratégia da Saúde da Família (ESF), contudo, apresenta estrutura física para apenas duas. Dessa forma, situações imprevistas cuja avaliação e definição de ofertas precisas de cuidado que não fossem possíveis de serem feitas na recepção, não teriam um espaço adequado para escuta, análise e definição de oferta de cuidado com base na necessidade de saúde.
Outro apontamento feito pela equipe foi o de que não há uma extensa demanda reprimida, já que, atualmente, os pacientes que precisam de consulta conseguem marcar com facilidade. Além disso, é importante frisar ainda que nós atendemos os casos de doenças agudas sem marcação, ou seja, segundo a visão da própria equipe, nós temos prestado boa assistência à comunidade com o modelo tradicional de marcação de consultas, explicando-se assim o desinteresse em se determinar que os atendimentos passem a ser predominantemente por demanda espontânea e não por consultas marcadas.
Apesar das dificuldades e da resistência que encontramos para implantar a estratégia do acolhimento, nós pudemos refletir sobre o nosso processo trabalho, sobre o trabalho em equipe e sobre a nossa forma de lidar com as demandas dos pacientes. Certamente essas discussões, se não nos levarem à implantação do acolhimento em curto prazo, nos levarão à implantação dela em médio ou longo prazo. O que já podemos observar, a partir dos debates em cima dessa temática, é que vemos o usuário de forma diferenciada do que víamos anteriormente e lidamos com suas demandas de forma muito mais empática.
REFERÊNCIA
NÚCLEO DE TECNOLOGIAS DE INFORMAÇÃO E COMUNICAÇÃO EM SAÚDE (NUTICS). Acolhimento: Algumas perguntas e respostas. 2013. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=TKLFYFfapaQ>. Acesso em: 01 jun. 2018.
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