Título: Acesso Adequado :Um novo caminho a ser construído
Nome do especializando: Rodolfo Lins da Silveira Macedo
Orientador: Maria Betânia Morais de Paiva
A parte mais importante para se frequentar um estabelecimento, é a forma como você é recebido no local e a impressão que este lugar lhe passa. Relatarei os fatores que contribuíram para a construção desse quadro.
Entre eles, critérios como: limpeza, iluminação, ventilação e acústica, tem importância fundamental, por se tratar de um ambiente adequado e seguro para atendimento na área de saúde.
A organização do local, desde a arquitetura em meio a distribuição do espaço interno, das portas, assentos e mesas, contribui para propiciar um ambiente adequado para atendimento, como também, para uma melhor comodidade.
O acesso e a distribuição das informações que ali se encontram, servem para proporcionar assim maior interação com o estabelecimento. A harmonia do local, que está implicitamente ligada à relação entre os funcionários e a forma como cada um desempenha o seu trabalho e a maneira como eles funcionam harmonicamente. E claro, a forma como somos recebidos pelos mesmos que prestam serviços. Uma vez que tínhamos esses fatores estabelecidos, criamos o ambiente perfeito para o acolhimento das pessoas que ali frequentam.
O segundo ponto, trata-se de focar nas pessoas que irão frequentar o estabelecimento, de maneira a buscar entender suas necessidades e o que elas ali procuram, tentando assim, lhes proporcionar maior satisfação através de um serviço de qualidade; criando formas de demonstrar preocupação em manter um padrão de qualidade baseadas em opiniões, críticas e sugestões fornecidas pelos próprios usuários.
Baseado nisso, trazendo agora para o nosso contexto em relação a nossa Unidade Básica de Saúde (UBS), levando em consideração os problemas que temos sofrido em relação à insatisfação de alguns usuários quanto à questão da insuficiência de fichas, marcação das mesmas, receptividade e tratamento por parte de alguns funcionários e também, pelas situações presenciadas quanto à relação da equipe, e com isso o desenvolvimento de suas tarefas e como elas têm repercutido na qualidade do serviço fornecido pela unidade.
Buscamos fazer uma autoavaliação para tentar montar ou reutilizar estratégias de maneira mais eficiente, que contribuam para solucionar tais problemas e ir mais além, tentando implementar formas e sistemas de garantir que qualquer cidadão, independente da sua nacionalidade, etnia, classe social, sexo e sua condição física, possa ter acesso a um Sistema Único de Saúde (SUS) de forma equânime e universal para que mais do que nunca o atendimento público esteja no mesmo patamar do ofertado na rede privada fazendo que não haja distinção entre os serviços disponibilizados pelos sistemas de saúde.
Como atendo em zona rural, minha equipe é volante, ou seja, todos os dias atendemos em uma unidade diferente. Desse modo, o processo de trabalho é descentralizado, pois é mais fácil deslocar a equipe, do que os pacientes. A nossa estratégia é voltada para as consultas agendadas, o que nos ajuda a ter um controle melhor do fluxo de pacientes na unidade no dia em que haverá atendimento.
Realizamos 26 atendimentos durante as oito (8) horas de trabalho destinadas aos atendimentos em cada unidade, sendo dez (10) atendimentos destinados as fichas de consultas agendadas e três (3) para urgências no turno da manhã e o mesmo esquema se repete no turno tarde. Não adotamos os atendimentos de demanda espontânea de maneira oficial, pois por ser apenas um dia de consulta destinado a cada comunidade, o número de consultas de demanda espontânea seria muito alto e os usuários que não conseguissem ter acesso as 10 fichas destinadas as consultas agendadas, iriam querer ser atendidos na demanda espontânea, fazendo assim com que houvesse uma aglomeração de pacientes dentro da unidade. Essa situação não seria viável por vários motivos, entre eles temos: um aumento do risco de infecção e de transmissão de doenças de um paciente em virtude da aglomeração de pacientes, aumento da poluição sonora dentro do estabelecimento. Aumento do risco de acidentes, sem falar que, os pacientes não iriam querer vir até a unidade para agendar a consulta, pois entraria na demanda espontânea do dia.
Dessa maneira, por saber também que nem sempre é possível pegar fichas devido a limitação dos horários e diante da necessidade de alguns pacientes de passar pela consulta médica, as fichas de urgências não preenchidas, são direcionadas a esses pacientes. Na indisponibilidade de fichas, o caso do paciente é relatado ao médico, que após o término dos atendimentos irá avaliar se a condição do usuário permite que seja solucionado numa consulta naquele momento ou se fará necessário marcar uma ficha para retornar para uma consulta mais detalhada dentro de um tempo oportuno.
Assim, os pacientes atendidos no dia são encaixados como demanda espontânea fazendo com que o número de atendimentos entre a demanda programada, espontânea e urgências variem em torno de 35 a 40 pacientes por dia de trabalho.
Dessa maneira, com base nas experiências vividas no processo dos atendimentos cotidianos e visando sempre um melhor acolhimento da população, a estratégia adotada pela equipe procura diminuir as filas de espera e implantar o acolhimento que melhor se enquadre no ambiente de trabalho.
Na perspectiva de se tentar ampliar o acesso dos pacientes às consultas realizadas na unidade, foram estudados outros meios de se disponibilizar ofertas para atendimento sem seguir a forma convencional. Entre elas, procuramos explorar as consultas através do Acesso Avançado (AA).
Acesso Avançado (AA) – é um sistema moderno de agendamento médico que consiste em agendar as pessoas para serem atendidas pelo médico no mesmo dia ou em até 48 horas após o contato do usuário com o serviço de saúde. O Acesso Avançado tem como objetivos diminuir o tempo de espera por uma consulta médica, diminuir o número de faltas às consultas médicas e aumentar o número de atendimentos médicos da população. (BRASIL, 2013)
Nessa direção, foi realizado uma reunião com a equipe para avaliar a viabilidade de implementação do Acesso Avançado em nossa realidade local. No primeiro momento foi colocado em pauta o funcionamento da estratégia para equipe. De início, surgiram questionamentos acerca de sua aplicabilidade, uma vez que preconiza o atendimento do paciente no mesmo dia ou até 48 horas da data em que buscou os serviços na unidade. Outro ponto levantado foi com relação à subjetividade do paciente no que diz respeito a necessidade pessoal de ter o problema resolvido, além da operacionalização dessa ferramenta levando em consideração a frequência semanal dos atendimentos e o fluxo de pacientes.
Ficou claro para a equipe que a adoção do acesso avançado, assim como, a organização do fluxo oriunda da demanda espontânea, requerem mais de um dia de atendimento naquele local, o que dificulta a operacionalização do AA em sua totalidade.
Desse modo foi pensado no coletivo a melhor maneira de conciliar as quatro (4) estratégias, que seriam: demanda agendada, atendimentos de urgência, demanda espontânea e acesso avançado. Foi criado assim, o Acesso Adequado com a finalidade de atender a realidade e necessidade do serviço, qualificando os profissionais para disponibilizar o acesso aos usuários de maneira tal que eles não saiam da unidade sem orientação acerca do seu problema e de como e quando ele será resolvido, ao mesmo tempo em que promova orientações aos usuários de maneira que eles possam desfrutar plenamente das ofertas disponibilizadas da UBS.
O acesso Adequado visa melhorar a distribuição das fichas para o atendimento daquele dia, trabalhando com as consultas agendadas, sendo disponibilizado um total de 10 fichas, conforme descrito anteriormente. Nessa lógica de reorganização do processo de trabalho foi pactuado que os pacientes previamente agendados seriam atendidos com horários marcados, pois antes os atendimentos eram realizados por hora de chegada o que ocasionava um longo tempo de espera para o atendimento clínico.
De acordo com a ordem de distribuição das fichas é estabelecido um horário para o atendimento e, desse modo, os pacientes adquirem uma maior flexibilidade ficando a seu critério esperar na unidade ou em casa, uma vez que já está garantido a consulta, podendo inclusive trocar os horários entre si de acordo com suas necessidades.
Dentro do acesso adequado são contemplados os caso de urgência, sendo destinadas três (3) fichas para aqueles pacientes que necessitam passar pelo atendimento imediato, uma vez que na unidade não se tem um grande fluxo de pacientes com urgências. Os casos são avaliados pelo médico ou pela enfermeira, pois são os únicos qualificados para realização de tal procedimento, pois o técnico ou auxiliar de enfermagem não pode realizar triagem ou classificação de risco em unidades de saúde, uma vez que esta é uma atribuição de profissionais de nível superior (COREN-SP, 2009). Vale ressaltar que esse limite pode ser ultrapassado, ficando em aberto o número de atendimentos nessa categoria durante o expediente da unidade a depender da necessidade.
Das fichas disponibilizadas no dia, três (3) são destinadas ao acesso avançado, que terão seus atendimentos realizados alternando-se entre uma consulta agendada e outra. E para finalizar os atendimentos daquele turno, três (3) fichas são destinadas as consultas espontâneas que serão realizadas no final do atendimento, sendo disponibilizadas, teoricamente, 1 hora para esses pacientes antes de encerrar o atendimento, sendo que esse tempo pode sofrer alterações em função do número de urgências e do tempo disponibilizados para o acesso avançado.
Desse modo, foram ampliadas seis (6) fichas em cada turno com a distribuição de 18 fichas no turno da manhã e 18 fichas no turno da tarde, perfazendo um total de 36 atendimentos diários. A ampliação da oferta só foi possível depois de se otimizar ao máximo o tempo operacional, levando em conta as oito horas diárias de funcionamento da unidade e a flexibilidade do tempo de consulta.
Para a implementação do acesso adequado se fez necessário a qualificação da equipe, entre eles: enfermeira, técnica de enfermagem e Agente Comunitários de Saúde (ACS). Nesse sentido, foi estabelecido uma reunião quinzenal para avaliação dos serviços prestados, identificação de problemas, planejamento das ações para realização do acolhimento, classificação e orientações aos usuários.
Trata-se de uma construção coletiva em prol da transformação de práticas, na perspectiva de se promover um atendimento integral, equânime e humanizado.
REFERÊNCIA:
BRASIL. Universidade Federal do Rio grande do Sul, 2013. Dissertação de mestrado: o acesso avançado e sua relação com o número de atendimentos médicos em atenção primária à saúde, por Tiago Barra Vidal orientada por prof. Dr. Sotero Serrate Mengue.
Disponível em: http://www.lume.ufrgs.br/handle/10183/87111
Acesso em: file:///D:/Users/Desktop/000910522.pdf
BRASIL. Experiência de acesso avançado, Acesso Avançado na Atenção Primária à Saúde (APS) – parte I. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=lOcHKbyU1T0
BRASIL. Experiência de acesso avançado, Acesso Avançado na Atenção Primária à Saúde (APS) – parte II. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=plrlErXPu5k
BRASIL. Conselho Federal de Enfermagem (COFEN,2012). Resolução COFEN Nº 423/2012 de 09 de abril de 2012, artigo 1º. Disponível em: http://www.cofen.gov.br/resoluo-cofen-n-4232012_8956.html
Brasil. Conselho Regional de Enfermagem de São Paulo (COREN-SP,2009). Parecer coren-sp cat nº 014/2009. Disponível em: http://portal.coren-sp.gov.br/sites/default/files/parecer_coren_sp_2012_1_0.pdf
BRASIL. Biblioteca Virtual de Saúde. DATASUS – Departamento de Informática do SUS / Ministério da Saúde. Número de consultas médicas por habitantes F.1. 2009. Disponível em: http://www.ripsa.org.br/fichasIDB/record.php?node=F.1&lang=pt&version=ed4 Acesso em: 12 ago 2014.
BRASIL. Ministério da Saúde. Secretaria de Atenção à Saúde. Departamento de Atenção Básica. Programa Nacional de Melhoria do Acesso e da Qualidade da Atenção Básica (PMAQ): manual instrutivo. 2017. Anexo B, 54 pg. Disponível em: http://189.28.128.100/dab/docs/portaldab/documentos/Manual_Instrutivo_3_Ciclo_PMAQ.pdf
BRASIL. Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba (CRM-PB). Limite de pacientes a serem atendidos por turno de 4 horas de trabalho no Programa de Saúde da Família (PSF). Processo consulta nº. 18/2002. Disponível em: http://www.portalmedico.org.br/pareceres/crmpb/pareceres/2002/18_2002.htm
BRASIL. Conselho Regional de Medicina do Estado da Paraíba (CRM-PB). Ementa: Número de atendimentos que um médico pode realizar no seu ambulatório. Processo consulta Nº 36/2010. Disponível em: http://www.portalmedico.org.br/pareceres/crmpb/pareceres/2010/36_2010.htm
BRASIL. Conselho Regional de Medicina do Estado do Pará (CRM-PA). Ementa: Número de pacientes a ser atendidos na jornada de trabalho do médico. Parecer consulta nº 009/2012 – crm/pa – processo consulta nº 437/2012 Disponível em: http://www.portalmedico.org.br/pareceres/crmpa/pareceres/2012/9_2012.pdf
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BRASIL. Ministério Público do Estado do Rio Grande do Norte. 1ª Promotoria de Justiça da Comarca de Mossoró, 2010. Parágrafo № 3. Disponível em: file:///D:/Users/Downloads/ACP%20Descumprimento%20horario%20servidores%20saude%20-%202010.pdf
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Brasil. Diretrizes operacionais, 2015. Unidade de Básica de saúde, prefeitura de São Paulo. Versão 01, proposta de organização, Pg 19. Disponível em: http://www.pucsp.br/prosaude/downloads/bibliografia/Diretrizes%20operacionais_AB_2015.pdf
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