23 de junho de 2018 / SEM COMENTÁRIOS / CATEGORIA: Relatos

CAPÍTULO I:

Avaliando a Demanda Psiquiátrica da Unidade  com base nos Indicadores

 

Especializando: Joice Cristina Dantas Brandão Marinho

 

Orientadora: Maria Betânia Morais de Paiva

 

Colaboradores: Enfermeira Louyse Mayara, técnica de enfermagem Patrícia, agentes comunitárias de saúde Ediene, Suely, Raimunda e Isis, psiquiatra Dr. Mário

Em 15 de Maio do corrente ano, foram realizados juntamente com minha Equipe de Atenção Básica (EAB), a saber: os agentes comunitários de saúde, técnica de enfermagem, médica e enfermeira, um momento de avaliação com base no manual de Autoavaliação de Melhoria do Acesso e Qualidade (AMAQ). Entre os vários problemas destacados com pontuação inferior ou igual a cinco (5), a problemática da saúde mental vem se mostrando recorrente e poucas mudanças foram realizadas para modificar a realidade local. Especificamente com relação ao item: 4.36 que discorre sobre a seguinte assertiva: A equipe de atenção básica desenvolve ações para as pessoas com sofrimento psíquico em seu território. Foi a partir deste item que definimos metas a serem cumpridas para alcançarmos melhor pontuação neste quesito, além de fornecer uma atenção e cuidado a esse grupo populacional – usuários de medicamentos psicotrópicos ou em sofrimento psíquico – a fim de melhorar sua qualidade de vida.

Por muitos anos, a saúde mental foi resumida apenas a prescrição de medicamentos e renovação de receitas. Fato este muito presente até nos dias atuais em muitas unidades de saúde. Vê-se, cada dia mais, jovens iniciarem o uso de antidepressivos, ansiolíticos dentre outras medicações cada vez mais cedo. Muitas vezes sem acompanhamento regular com médico que prescreve a receita, ou mesmo, do especialista.

Nos últimos anos, muito tem se falado sobre “Reforma Psiquiátrica”, onde os hospitais psiquiátricos deixaram de ser a base do sistema assistencial, abrindo espaço para uma extensa rede de serviços extra-hospitalares, de complexidade cada vez mais crescente, desconstruindo o modelo antes vigente.

Neste contexto, o paciente, sua família e os profissionais dos serviços comunitários passam a serem, cada vez mais, os principais provedores de cuidados em saúde mental. Exigindo articulação entre diversos serviços da rede de saúde em seus diferentes níveis de atenção. (BANDEIRA; BARROSO, 2005)

A demanda de cuidado em saúde mental não se restringe apenas a minimizar riscos de internação ou controlar sintomas. Atualmente, o cuidado envolve também questões pessoais, sociais, emocionais e financeiras, relacionadas à convivência com o adoecimento mental. Tal cuidado é cotidiano e envolve uma demanda de atenção nem sempre prontamente assistida devido a inúmeras dificuldades vivenciadas tanto pelos pacientes e seus familiares, quanto pelos profissionais e a sociedade em geral, tais como: escassez de recursos, inadequação da assistência profissional, estigmatização, violação de direitos dos doentes, dificuldade de acesso a programas profissionalizantes, etc. (FUREGATO, 2009)

Tendo em vista essa realidade, que não é diferente em meu local de trabalho, uma das ações propostas pela equipe foi a de se realizar reuniões periódicas em grupo, em uma espécie de “grupo de ajuda conjunta”, onde os relatos de alguns pacientes poderiam contribuir para a saúde mental de outras pessoas. Este grupo contaria com apoio do Núcleo de Apoio à Saúde da Família (NASF) na pessoa da psicóloga e do educador físico, dos agentes comunitários de saúde que por pertencerem à comunidade facilitaria a adesão dos pacientes ao grupo terapêutico, além da médica e da enfermeira. Seriam realizadas, pelo menos 1 reunião mensal ou mais, a depender da aceitação e necessidade dos usuários. Este grupo recebeu o nome de “Grupo Emoções”.

Outra ação proposta foi a realização de palestras sobre uso abusivo de medicamentos com atuação no sistema nervoso central, bem como a caracterização de algumas doenças com ênfase no tratamento não medicamentoso e apresentação de outras terapias alternativas e complementares. Essas palestras seriam realizadas pelo psiquiatra do Centro de Apoio Psicossocial (CAPS) que se mostrou solícito a nossa demanda, com periodicidade de pelo menos uma vez a cada 2 meses e com o médico da unidade, caso haja necessidade de uma abordagem mais recorrente sobre temas trazidos pelos próprios usuários.

Foi proposta também uma parceria com o CAPS, principalmente para aqueles pacientes mais graves, onde um acompanhamento com o psiquiatra seria mais frequente.

Para realização dessas propostas, seriam necessários: sala para realização das reuniões, Datashow, panfletos ilustrativos, computador, lanches para as reuniões com os usuários. E já pretendemos implantar tais ações a partir de maio do corrente ano e dar prosseguimento às propostas de forma sistemática.

Nossa primeira reunião do Grupo Emoções aconteceu no dia 24 de Maio e contou com um número satisfatório de usuários, aproximadamente 30, onde Dr. Mário deu uma palestra sobre “Insônia e Ansiedade” e tirou dúvidas dos usuários. Após a palestra o educador físico Lucas orientou sobre a importância da prática responsável de atividade física e realizou exercícios com os presentes.

Para nossa primeira reunião, o resultado foi bem satisfatório, pois a adesão ao grupo foi além do imaginado, embora ainda tenha sido limitada, tendo em vista o número de usuários de medicamentos psicotrópicos na UBS. Compareceram também não só dos pacientes com transtornos psíquicos mas também, alguns familiares, fato esse bastante estimulante para equipe. Pretendemos melhorar a cada reunião a partir das opiniões dos usuários sobre temas, atividades, etc. Nossa proposta é também organizar grupos menores para conversas e “desabafos” dos próprios pacientes entre si.

As principais dificuldades encontradas foram principalmente com respeito à adesão deste grupo de pacientes, uma vez que ainda persiste muito preconceito com relação às doenças psíquicas entre os próprios pacientes que na sua maioria não se consideram doentes. Além da dificuldade de engajamento da equipe que se mostram resistentes a essas reuniões em horários que fogem do expediente, em virtude das inúmeras outras atividades no cotidiano do serviço.

Dando continuidade a observação da unidade de saúde, a equipe dispõe de banners fixados na unidade, mostrando alguns dos indicadores de desempenho exigidos pelo Programa de Melhoria do Acesso e Qualidade (PMAQ).

Esses dados são retirados do sistema de informação do E-SUS e colocados no banner. Ultimamente não estava se atualizando tais indicadores, mas após a reunião, foi-se definida a responsabilidade de cada profissional em colocar os dados que dizem respeito à sua parte no banner. (Na foto em anexo consta o banner ainda desatualizado).

Anexo 1

Apesar de ainda ser um projeto inicial, a equipe percebeu o interesse da população em participar, o que nos faz acreditar que mudanças positivas no perfil dos pacientes em sofrimento psíquico serão notadas em breve, com a continuidade desse trabalho e maior adesão de novos pacientes, melhorando assim a qualidade de vida dos usuários e de seus familiares.

 

REFERÊNCIAS

BANDEIRA M, BARROSO SM. Sobrecarga das famílias de pacientes psiquiátricos. J Bras Psiquiatr. 2005;54(1):34-46.

FUREGATO ARF. Mental health policies in Brazil [editorial]. Rev Esc Enferm USP. 2009;43(2):1-2.

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